I - O que é a Análise de Pegadinhas?


Que as questões com pegadinhas são um dos maiores obstáculos dos concursos públicos e também na primeira fase dos exames da OAB não é segredo nenhum. Tenho certeza de que o professor do cursinho já deve ter lhe apontado várias delas em aula, qualquer que seja a matéria em questão. No entanto, por incrível que pareça, até hoje não encontrei nenhum professor ou livro que se preocupasse em analisá-las.

Antes que você diga que estou sendo injusto e responda com um email irado em defesa do seu querido mestre ou cite uma dezena de excelentes livros de preparação para concursos que analisam exaustivamente diversas questões com pegadinhas quero que entenda exatamente o sentido da minha afirmação: Não estou dizendo que aqueles que dedicam a sua vida ao edificante trabalho de nos preparar para a conquista de um objetivo tão importante para nós, não analisem questões com pegadinhas. Na verdade fazem isso o tempo todo e certamente a análise de tais questões em muito contribui para a nossa preparação e para o avanço dos nossos conhecimentos.

O que eu quero que você entenda é que uma coisa é analisar uma questão com uma pegadinha. Outra muito diferente é analisar a pegadinha em si. Como ela foi estruturada? A que tipo de candidato, ou em que estado de espírito o criador da pegadinha esperava que o candidato se encontrasse ao deparar-se com a questão? Como aumentar a probabilidade de induzir o candidato a escolher a resposta errada? Que palavra ou expressão no enunciado esconde o verdadeiro sentido da resposta pretendida pela banca, palavra ou expressão essa que se identificada colocaria a nu a intenção maliciosa do enunciado ou das opções de resposta? De quantas maneiras é possível manipular um determinado tópico exigido pelo edital para que a questão ao ser formulada encerre uma armadilha sutil?

A resposta a todas essas perguntas proporciona uma visão inteiramente nova sobre as pegadinhas. É a visão do criador da pegadinha. Para desenvolvermos a habilidade de identificá-las devemos pensar da mesma forma que ele. Isso é completamente diferente de explicar por que determinada questão tem uma pegadinha.

E qual a vantagem dessas perguntas em relação ao método tradicional dos professores e dos livros que apenas nos mostra onde está a pegadinha? Muito simples. Toda pegadinha possui uma estrutura. E daí? Isso não teria nenhuma importância se não fosse por um segundo e importante motivo que nos possibilita criar um método de análise baseado na generalização: tais estruturas são em número limitado. Fico espantado ao perceber que aparentemente até agora ninguém havia sido percebido isso.

Em resumo:
1 – Toda pegadinha tem uma estrutura
2 – Essas estruturas são em número limitado
3 – Logo, as pegadinhas podem ser CLASSIFICADAS POR TIPOS

Ora, é a partir desse silogismo que podemos construir o alicerce fundamental de uma nova e fascinante disciplina: a Análise de Pegadihas. Se as estruturas (isto é, as maneiras de se criar uma pegadinha) são em número limitado é possível classificá-las. O que equivale a dizer que é possível construir uma lista dos diversos tipos de pegadinhas que vamos identificando, à medida que analisamos diversas questões sob essa nova ótica.

Tememos aquilo que não conhecemos. Quando o homem passou a estudar o clima e desenvolveu instrumentos para analisar os movimentos das diversas forças da natureza adquiriu um certo grau de previsibilidade em relação à ocorrência de tempestades, sismos e outras catástrofes e embora esse conhecimento não possa evitar a ocorrência eventual de tragédias, em muito contribuiu para reduzir os efeitos dos danos que estas podem nos causar. Atualmente, é possível detectar a aproximação de um furacão a tempo suficiente de tomarmos medidas que certamente ajudarão a salvar muitas vidas e a reduzir, pelo menos em parte, os prejuízos materiais.

Da mesma forma um conhecimento maior do que realmente são as “pegadinhas de concurso” servirá para que o candidato fique atento às sutilezas das estruturas criadas pelos autores das mesmas. E para aprofundar certa espécie de conhecimento, qualquer que seja ele, nada melhor do que sistematizá-lo. Para isso é necessário analisar o maior número possível de casos em que ocorrem os fenômenos sobre os quais ele trata. Ou seja, o seu objeto de estudo.

É essa a proposta da Análise de Pegadinhas. Uma disciplina que surgiu com a pretensão, nada modesta, mas perfeitamente viável, de transformar as pegadinhas que aparecem nas questões de provas das mais diversas matérias de concursos públicos e também nos exames da OAB em um objeto autônomo de estudo.

Para isso assumimos certos pressupostos, que embora não sejam inquestionáveis, fornecem uma sólida base para a construção de um corpo teórico e para o desenvolvimento de alguns conceitos básicos que podem ser facilmente deduzidos da observação empírica das questões apresentadas pelas diversas bancas nos mais variados tipos de concursos realizados nos últimos dez anos.

Como afirmei, a criação de uma classificação das pegadinhas é consequência natural desse silogismo. O problema é que construir essa classificação (uma verdadeira "taxonomia" das pegadinhas) exige uma enorme quantidade de esforço, no sentido de analisar milhares de questões de provas de concursos passados, identificar aquelas que encerram pegadinhas (já que as questões que as contém não são a maioria), e dentre estas, identificar os diversos tipos de estruturas usadas pelas bancas para montar as questões maliciosas.

E creio que é exatamente devido a essa enorme quantidade de trabalho que não é só intelectual, mas também "braçal", devido à quantidade de questões que precisam ser analisadas que nenhum professor ou autor de renome tenha se aventurado a realizar um tal tipo de classificação. Professores de quaisquer matérias, advogados, juristas que dão aulas de preparação para concursos são pessoas extremamente ocupadas. Dificilmente poderiam dedicar seu precioso tempo à ingrata tarefa de pesquisar pegadinhas e analisá-las uma a uma com a finalidade de estabelecer uma classificação.

Só mesmo um concurseiro típico, alguém que estabeleceu como objetivo estudar “até passar” e que resolveu abrir mão de uma série de prazeres da vida para perseguí-lo pacientemente é que poderia se lançar a esse tipo de empreitada. Simplesmente porque, ao pesquisar e analisar questões com pegadinhas na imensa quantidade de material de preparação existente, ele estava ao mesmo tempo se preparando para o próximo concurso.

Durante mais de dois anos consecutivos pesquisei e analisei questões com pegadinhas principalmente nas áreas de Direito Administrativo, Constitucional e Civil. E em menor escala também em questões de Informática e Tecnologia da Informação. O resultado disso foi a elaboração da classificação acima mencionada e que consiste (provisoriamente) na definição de quatorze tipos básicos de pegadinhas baseados na estrutura utilizada para a sua construção.

Nas palavras do prof. Enrique Rocha, autor do melhor e mais conhecido manual de Raciocínio Lógico para concursos, publicado pela Ímpetus, que me concedeu a honra de escrever o prefácio do meu livro sobre pegadinhas de Direito Constitucional: “quando encontramos elementos comuns que nos permitem agrupar as coisas temos como resultado a possibilidade de generalização, o que significa que podemos usar aquele aprendizado em mais de um contexto”.

Dessa forma, o prof. Enrique conseguiu sintetizar modo muito melhor do que o próprio autor, a essência da praticidade do método por mim proposto. Classificar, para generalizar. Generalizar para identificar. Identificar para dominar.

- Ao definir os quatorze tipos principais de pegadinhas, ensinando-lhe a identificá-las – prossegue o mestre – isso desenvolve em você um “olhar Clínico”, a criação de uma capacidade crítica e analítica para usar as dicas não apenas para as questões examinadas, mas em qualquer contexto em que tais “arapucas” venham a aparecer.

Nos próximos encontros, apresentarei alguns conceitos úteis por mim desenvolvidos que podem ser utilizados tanto como meios de entender melhor como e com que objetivos as pegadinhas são utilizadas, como também entendidos como os primeiros tijolos a serem utilizados no desenvolvimento de uma Teoria das Pegadinhas. Quanto mais nos debruçamos sobre as pegadinhas, mais coisas interessantes descobrimos sobre elas.

Apresentarei também, um resumo da classificação das pegadinhas por mim desenvolvida e ao final desta série você poderá baixar um e-book com a explicação completa de cada tipo de pegadinha estudada, dicas para criar as suas próprias pegadinhas - ótimas para professores de cursinhos - e sugestões muito úteis para aperfeiçoar a sua forma de se preparar para concursos públicos.

Até lá.

Eric Savanda
do site www.pegadinhas-de-concursos.com.br