Interpretação de texto em exercícios de exatas


Sim, é possível e necessário.

Aplicar algumas técnicas de interpretação de texto em exercícios de exatas pode ser a chave para uma questão bem resolvida. Obviamente que um exercício em exatas não é como um exercício de humanas, em que o próprio enunciado contém o sumo da resposta exprimido nas alternativas. O texto nos dá indícios, tais indícios nos levam a fórmulas, e estas fórmulas, a uma resolução.

Vamos a um exemplo extraído do site da FUVEST (www.fuvest.br). É a questão 2, prova de segunda fase de Física em 2001:

ciclistaUm ciclista, em estrada plana, mantém velocidade constante Vo = 5,0 m/s (18km/h). Ciclista e bicicleta têm massa total M = 90kg. gráficoEm determinado momento, t = to, o ciclista pára de pedalar e a velocidade V da bicicleta passa a diminuir com o tempo, conforme o gráfico ao lado.


Assim, determine:

a) A aceleração A, em m/s², da bicicleta, logo após o ciclista deixar de pedalar.

b) A força de resistência horizontal total FR, em newtons, sobre o ciclista e sua bicicleta, devida principalmente ao atrito dos pneus e à resistência do ar, quando a velocidade é Vo.

c) A energia E, em kJ, que o ciclista "queimaria", pedalando durante meia hora, à velocidade Vo. Suponha que a eficiência do organismo do ciclista (definida como a razão entre o trabalho realizado para pedalar e a energia metabolizada por seu organismo) seja de 22,5%.

Analisemos a estética da questão. Possui enunciado, que é sempre afirmativo e possui as informações gerais necessárias para a solução das questões abaixo. Um gráfico à direita, cuja linha começa no canto esquerdo superior e desde para o canto direito inferior. E a figura elucidativa de um ciclista. Busque por itens em negrito. Vemos A, FR e E. Uma batida de olho e podemos ver que surgem as palavras velocidade, aceleração, força, unidades de medida como m/s². É o que nos basta para saber que se trata, dentro da Física, da Mecânica. Eliminamos Termodinâmica, Eletromagnetismo e outros. Não é muito, mas é um começo.

Analisemos o enunciado. Trecho por trecho, identificando quem é o sujeito de quem, quem é o predicado de quem e por aí vai.

Um ciclista <numericamente, “um único” ciclista apenas; e um ciclista “qualquer”>,

em estrada plana <este trecho tem função de advérbio. É onde ele está. A estrada é plana e o que é plano, é também reto>

mantém velocidade constante Vo= 5,0 m/s (18 Km/h) <primeira informação voltada para a área. O ciclista está a uma velocidade constante, ou seja, a uma velocidade que permanece, que não se altera, que não muda. Observe o parênteses à frente. Parênteses não pode ser usado para acrescentar, apenas para explicar ou mudar de forma um termo anterior. Logo, o número e a unidade de medida dentro dos parênteses é a mesma informação anterior, mas escrita de outra forma. Uma piadinha: não sabemos se o ciclista está de bicicleta, de carro ou correndo, por enquanto>

Ciclista e bicicleta <ah, agora sim. Ele está de bicicleta. “Ciclista e bicicleta” formam um sujeito composto>

Têm massa total M= 90 kg <sujeito composto bem identificado pelo verbo “têm”, com acento. É o mesmo que “eles têm”. Eles têm o quê? “Massa total M= 90 kg”. Observe que o termo “total” é até uma redundância, já que o sujeito “ciclista e bicicleta” e o verbo “têm” já caracteriza que estamos falando dos dois ao mesmo tempo, formando um todo. Obviamente a massa só poderia ser total. Concluímos que os dois juntos tem massa de 90 kg. Não sabemos a massa de cada um individualmente. Sempre lembrando, massa é invariável, peso depende da gravidade e da altura.>

Em determinado momento, t= to <trecho adverbial que estabelece uma quebra no paradigma anterior. Entendemos que “o ciclista vinha desta forma, até que...”. Esta forma de escrever “em determinado momento”, é próprio da área de exatas. O momento poderia ser qualquer um, mas é determinado, medido, indicado. O termo entre vírgulas à frente pode ser entendido como um aposto, “nomeando” o momento que foi determinado. Ele se chama “t” e é igualado a “to”. Este zerinho subscrito significa “t” inicial, o primeiro “t”, o marco do “t”.>

O ciclista pára de pedalar <se o ciclista parou, então ele estava pedalando. O ciclista poderia estar com a bicicleta nas costas correndo a 18 km/h. Claro que poderia. Isto pode ser importante. Toda informação pode ser importante. Se ele estava pedalando, é porque estava girando o pedal que movimenta a corrente; que movimenta a roda traseira; que empurra ciclista e bicicleta para frente. O importante aqui é: se alguém vem pedalando em uma bicicleta, numa estrada plana, reta, e, de repente, para (“pára”, naquele época, tinha acento. Saudades!), o que vai acontecer com os dois? Eles vão parar. Vão parar vagarosamente. Isto nós presenciamos no dia-a-dia, pela nossa experiência. É uma postura das provas da Fuvest, de contextualizar teoria com assuntos do cotidiano>

E a velocidade V da bicicleta passa a diminuir com o tempo <observe que deduzimos esta frase somente pela anterior. Mas, numa prova de vestibular, não se pode deixar margens para dúvidas (a estrada poderia estar no espaço, onde a velocidade não diminuiria, por causa do vácuo). A velocidade da bicicleta (e do ciclista, lógico) passa a diminuir com o tempo. Este “com o tempo” tanto nos dá a idéia em física de passagem de tempo, 1 segundo, 2 segundos, tanto quanto nos dá a idéia de demora, de algo que não ocorreu de vez, de algo que ocorreu aos poucos, paulatina e uniformemente. O dado mais importante aqui é “velocidade V”. A velocidade da bicicleta não era Vo? É o mesmo que aconteceu com o “t”. O “t” que iniciava tinha um zerinho. O “V” que iniciou também tinha um zerinho. Logo, a velocidade V é a nova velocidade que o ciclista adquiriu quando deixou de pedalar a bicicleta. Mas ela não é um número fixo, pois, “com o passar do tempo”, reduz mais e mais. Sei que você já começou a captar a idéia do gráfico>

Conforme o gráfico ao lado <viu? O gráfico elucida os números envolvidos na questão>

Daí em diante, tudo se torna mais aberto e possível, porque sabemos o que pode ser perguntado. Afinal, temos algumas informações claras, alguns dados e o porquê destes dados.

Tudo isto para mostrar que não precisamos nos desesperar com questões de exatas (claro, aqueles que não têm facilidade). É um texto como qualquer outro, geralmente bem simples de se entender, às vezes até redundante quando o encaramos além dos símbolos. É possível contextualizar Gramática, colocá-la em prática nas outras matérias. Basta querer.

Até a próxima.

Cristiano Alexandria de Oliveira